PAULA SANTISTEBAN

Release

A cantora Paula Santisteban habita um lugar único na música brasileira desta década, onde o refinamento e a delicadeza musical encontram uma sensibilidade quente e táctil, que nega a falsa perfeição de recursos artificiais para reforçar sua natureza orgânica, cálida e vital. Nascida em uma família de artistas, ela carrega a música em sua genética.

Paula canta a vida que conhece e reconhece, traduzida sem retoques, em busca da essência de uma beleza que muitos julgam perdida, mas que reside em cada um de nós. Com uma voz comedida e carregada de sentimentos e experiência, ela vem cercada de uma banda base (Eric Budney no baixo, Daniel de Paula na bateria, Roberto Pollo nos teclados e a guitarra de Eduardo Bologna, diretor musical do disco) e adorna suas próprias composições com cordas marcantes, madeiras sóbrias e metais nobres arranjados por Ed Côrtes.

O seu álbum de estreia é também a última produção em vida do “mítico” Carlos Eduardo Miranda, falecido em março de 2018. “O processo todo foi profundo e simples”, explicou o produtor em entrevista para o making of das gravações do disco, “A cada estímulo que dava, a resposta ia além da esperada, para chegar no mais simples, no mais sutil, no mais espaçoso, no mais livre – como a melhor música deve ser”. Miranda ressaltou ainda um aspecto fundamental, “A Paula está cantando pura e simplesmente com a alma, ela não está interpretando nada, ela não é uma cantora intérprete, é uma cantora de pura expressão”.

O lançamento do trabalho será em setembro pela gravadora Warner, com show no Auditório Ibirapuera no dia 30 do mesmo mês. São dez faixas que foram extraídas de mais de vinte – Miranda tinha uma visão sobre um disco enxuto e sólido. Queria que o disco tivesse uma narrativa que entrelaçasse sentimentos e emoções da mesma forma que amarra os instrumentos, costurando um romance de sensações e musicalidade que comporia um álbum, muito mais do que um apanhado de canções. Cinco delas foram compostas por Paula em parceria com Bologna, enquanto as outras cinco vêm de autores queridos da cantora, como “Frágil” de Fabio Góes, “Eu Vou Ter Saudades” de Tim Bernardes, “Estranho” de Tchello Palma, além de duas que são exclusivamente de Eduardo Bologna. Gravado por Rodrigo Sanches, Sarah Abdala e Maurício Cersosimo entre São Paulo e o Rio de Janeiro, o álbum foi mixado por Maurício Cersosimo em São Paulo, e masterizado por Greg Calbi, no Sterling Sound, em New Jersey. Para este show de lançamento, Paula conta com, além de uma banda na mesma formação do disco, uma miniorquestra com nove músicos, cenografia e figurino pensados especialmente para esta apresentação. O show terá a participação especial do pianista e violoncelista cubano Yaniel Matos, em uma versão inédita do compositor norte-americano Elliot Smith.

O disco de Paula Santisteban traz um alento quente e acolhedor no meio de um século sufocante e hiperconectado, em que o contato humano torna-se um produto e o olho no olho parece ultrapassado. Paula vem contra esta corrente, reforçando que só precisamos de nós mesmos para conseguirmos o que queremos. Seu disco é a prova disso – e ela mostra isso em seu cantar.

Alexandre Matias é jornalista, curador de música e diretor artístico.